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Gordura bege ajuda a queimar calorias e pode ser chave para regular a pressão arterial; entenda
28/01/2026
(Foto: Reprodução) Gordura bege ajuda a perder calorias e regula a pressão arterial.
Freepik
O excesso de gordura no corpo, quadro comum para quem enfrenta a obesidade, é frequentemente associado a problemas cardíacos. Mas uma nova pesquisa mostrou que um tipo de gordura no corpo pode desempenhar justamente o papel oposto e proteger o coração: a gordura bege.
👉Pode soar incomum, mas alguns tipos de gordura no corpo são divididos por cor. São seis diferentes tipos no organismo, sendo que três são categorizados por cor: gordura branca, gordura marrom e gordura bege. (entenda mais abaixo)
➡️O estudo publicado em janeiro na revista científica "Science" demonstrou como a gordura bege termogênica – que queima energia para produzir calor – tem uma relação direta com o controle da pressão arterial, sendo responsável pela proteção dos vasos sanguíneos.
Paul Cohen, chefe do Laboratório de Metabolismo Molecular da Rockefeller University e autor principal do estudo, explica que há muito tempo se sabe que a obesidade aumenta o risco de hipertensão e outros problemas cardiovasculares.
Mas a pesquisa revelou, em modelos animais, os mecanismos de ação da gordura no sistema cardiovascular.
"Descobrimos uma forma pela qual o tecido adiposo pode regular a pressão arterial e a função vascular. Confirmamos que não é apenas a gordura em si que contribui para a hipertensão, mas o tipo de gordura", analisa o pesquisador.
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O estudo, realizado com camundongos, mostrou que a perda de gordura bege aumenta a sensibilidade dos vasos sanguíneos à angiotensina, um importante hormônio vasoconstritor – que causa o estreitamento dos vasos, aumentando a pressão arterial. (entenda mais abaixo)
Cynthia Valério, médica endocrinologista e diretora da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO), explica que já existiam alguns estudos observacionais que relatavam que pessoas com maior quantidade de gordura marrom e bege apresentavam uma menor predisposição a ter hipertensão arterial sistêmica.
Mas a grande novidade do estudo é demonstrar esse processo em animais.
"O grande ponto desse estudo é que ele sugere, a partir de um modelo animal, uma relação causal entre a presença de adipócitos bege a uma menor chance de hipertensão a partir de um mecanismo molecular", detalha Valério, que também é subcoordenadora do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
A médica destaca que o estudo mostra que a gordura bege protegeria os vasos contra um enrijecimento que acontece naturalmente durante o envelhecimento.
Segundo os pesquisadores, o bloqueio de uma enzima envolvida nesse processo foi capaz de restaurar a função vascular saudável nos animais.
Tipos de gordura no corpo
Um dos pontos chave da pesquisa é entender que os diferentes tipos de gordura corporal influenciam de forma distinta o sistema cardiovascular.
👉O corpo humano possui seis tipos de gordura:
Essencial
Branca
Marrom
Bege
Subcutânea
Visceral
Mas, para a análise, os pesquisadores se concentraram nos seguintes tipos:
Branca - é a maior parte da gordura do corpo. Ela armazena energia em vários locais do corpo e isola termicamente os órgãos. O excesso desse tipo de gordura pode levar à obesidade.
Marrom - tipo de gordura que regula a temperatura corporal. Ela armazena energia e utiliza essa reserva para queimar calorias em forma de calor.
Bege - é uma combinação de células de gordura branca e marrom. Essas células queimam calorias para regular a temperatura corporal, transformando células de gordura branca em marrom.
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Gordura bege e proteção cardiovascular
A partir de evidências clínicas de que pessoas com gordura marrom – que contribui para a queima de calorias – têm menor probabilidade de desenvolver hipertensão, os pesquisadores criaram modelos de camundongo incapazes de formar gordura bege, para entender o que acontece quando esse tecido é perdido.
O resultado é que a perda desse tipo de gordura levou a um aumento dos níveis de gordura branca e, consequentemente, uma alta na pressão arterial.
🧬Uma observação mais detalhada, a partir do sequenciamento do RNA, revelou que a ausência dessa gordura fez com que os vasos se tornassem menos flexíveis, levando o coração a bombear com mais esforço e elevando a pressão.
"A gordura bege teria o papel de diminuir o estresse oxidativo da célula e seria capaz de reduzir a rigidez dos vasos", analisa Valério.
Nesse processo, eles identificaram que, quando a gordura bege é perdida, há uma superprodução da enzima QSOX1, responsável pela mudança total nos vasos sanguíneos.
Cohen explica que a retirada da gordura bege fez com que animais que eram saudáveis em todos os aspectos passassem a ter sintomas relacionados com a hipertensão.
"Foi observada uma remodelação drástica da gordura que reveste a vasculatura, rigidez e fibrose dos vasos sanguíneos e hipersensibilidade a hormônios que promovem a constrição vascular", comenta.
Futuro do tratamento contra hipertensão
Ao detalhar um mecanismo que pode contribuir para pressão alta, a pesquisa abre um novo caminho para o desenvolvimento de terapias mais precisas que envolvam a relação entre a gordura corporal e os vasos sanguíneos.
Cynthia destaca que esse tipo de estudo em modelos animais é um passo importante para que a descoberta se torne um alvo terapêutico, nesse caso com maior entendimento do controle a hipertensão arterial.
De acordo com os pesquisadores, os resultados devem levar a novas pesquisas que investiguem melhor como a enzima QSOX1 remodela a estrutura dos vasos sanguíneos e como as diferenças na gordura que envolve o sistema vascular influenciam no desenvolvimento de doenças.
"Quanto mais sabemos sobre essas ligações moleculares, mais podemos avançar rumo a um mundo em que seja possível recomendar terapias direcionadas com base nas características médicas e moleculares individuais", conclui Cohen.
Ele ainda acrescenta que o grupo já busca associações entre medicamentos já aprovados e a atividade da gordura marrom. A ideia é entender se eles podem influenciar na ação desse tipo de gordura no corpo e, em caso positivo, aproveitar esses medicamentos para esse objetivo.
Cohen também já projeta a possibilidade de ir além dos modelos em camundongos e investigar melhor o papel dos diferentes tipos de gordura em humanos.
Essas etapas futuras são essenciais para o desenvolvimento de um novo tratamento viável e seguro da pressão alta.
"Precisamos desses dados comprobatórios em modelos humanos e em modelos in vitro para seguir adiante como uma via para tratamento da hipertensão arterial", ressalta Valério.